domingo, 28 de agosto de 2011

Quando eu for grande


Ó mãe,
Quando for grande,
Hei-de agarrar aquela estrela além,
A mais pequenina,
Que treme de medo por cima do Forte
De Santa Catarina;
Tadinha da estrela, ó mãe!...
Faz-lhe medo o mar,
Sempre a ralhar, sempre a ralhar...
Quando for grande,
Hei-de pedir às ondas barulhentas
Que batam devagar,
Devagarinho
Devagarinho como a tua voz
A adormecer o teu menino...
Olha, vê,
Não chego à estrela, não
Sou pequenino;
Quando for grande,
(Amanhã já sou grande mãe?...),
Vou no barquito do "Pereirão" de Buarcos,
E bato no mar
Até ele chorar...
E a estrela , sem medo,
Há-de deixar-se agarrar,
Porque eu sou grande,
Bati no mar!...
Quando fores rezar
À capela do Forte
Hei-de ir de mansinho,
Mais de mansinho que as ondas a chorar,
E ponho a estrela pequenina
No teu cabelo...
Hás-de parecer a Santa Catarina,
Inda mais linda!...
Depois fujo a buscar mais estrelinhas
Medrosas
E atiro-as às redes
Dos pescadores pobrinhos;
Tás a chorar?!...
Aquela estrela não é linda se calhar...
Deixa lá, mãezinha;
Quando for grande,
Levo-te ao céu e escolhes uma maiorzinha...
(Amanhã já sou grande, mãe?...)
(Maria Almira Medina)


A vida
A vida é o dia de hoje,
a vida é ai que mal soa,
a vida é sombra que foge,
a vida é nuvem que voa.
A vida é sonho tão leve
que se desfaz como a neve
e como o fumo se esvai...
A vida dura um momento;
Mais leve que o pensamento,
a vida leva-a o vento,
a vida é folha que cai.
(João de Deus)

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

"Nas tuas horas mais tristes
De mágoas e desenganos
Pensa que já não existes
Que morreste há muitos anos"


(António Aleixo)

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

GLÁDIO

Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgraça,
As horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
A esta febre de Além que me consome,
E este querer grandeza são seu nome
Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.



(Mensagem- Fernando Pessoa- 1913)

"Iniciaçãओ"

Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo
... ... ... ... ... ... ...
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo


Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser,
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.


Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.

Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu,
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.

Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.

(...)

A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte,
Não śtás morto, entre ciprestes.

... ... ... ... ... ... ...

Neófito, não há morte.

(O Rosto e as Máscaras-Fernando Pessoa-1932?)